OS MALANDROS DE ANTÔNIO FRAGA
Giovanna Ferreira Dealtry - PUC-Rio
Para Julio Diniz
tudo aquilo que o/ malandro pronuncia/com voz macia,/ é brasileiro, já passou/ de português
Noel Rosa - Sem tradução – 1933
O Rio de Janeiro que se inscreve na prosa fraguiana propõe um duplo pacto ao leitor. Por um lado, remete ao espaço geográfico e histórico; por outro, ele é lugar de construção do imaginário carioca. Ao contrário de outros textos da modernidade carioca, que procuram equacionar esses dois tempos de relato, Desabrigo, de Antônio Fraga, tensiona-os.
Contra o ensejo estado-novista de estabelecer uma nação una e homogênea, vinculada principalmente à imagem do trabalhador, Antônio Fraga expõe uma gama de personagens que não participavam da cena oficial da metrópole. Mais ainda, tipos que não buscavam se inserir na ordem vigente do capitalismo através da exaltação populista ao trabalho. O malandro, posto em evidência pela presença do sambista no cenário cultural, será a figura exemplar deste núcleo.
O mundo do Mangue parece funcionar como um último reduto, onde ainda é possível viver com regras particulares, quase ignorando as leis que regem a cidade oficial. Esquecidos, ou perseguidos, pela ordem dominante, resta a estes malandros, vagabundos e prostitutas organizaram-se em um forte sistema de regras que lhesassegure a sobrevivência e permita a transgressão da ordem.
Neste cenário, a representação ficcional do malandro personifica uma resposta à crença na passividade dos excluídos em relação aos opressores. Os malandros do Mangue fazem do agir a principal vocação. O conto do vigário, a cafetinagem, o jogo, a capoeiragem e a venda de sambas são formas de sobreviver mas, sobretudo, de inscrever-se como sujeito em meio a entidade “povo”. Sem ter assegurada sua formação como indivíduo, o malandro garante sua visibilidade a partir do corpo e das atitudes marginais.
Porém, cobrinha e desabrigo, os dois principais malandros da novela de Fraga, parecem prescindir de uma característica comum ao universo da malandragem: a capacidade de negociação com as instâncias representativas da ordem. A escrita, muitas vezes idealista de Fraga, transforma-os em uma espécie de anti-heróis do espaço marginal. Fixa no rosto a máscara de malandro. Reconhecível por todos, estes personagens não conseguem enganar mais ninguém.
Desabrigo é a narrativa da decadência destes personagens que não conseguem mais explorar as frestas. O cerco moral fecha-se sobre o Mangue e seus habitantes, e aos malandros, presos no tempo e no espaço, resta a prisão ou o desaparecimento. Em uma primeira leitura, parece que o tempo histórico destes personagens está se esgotando, junto com o Mangue.
É preciso não esquecer, entretanto, que a vida dos malandros chega até nós mediada por um intelectual boêmio: evêmero, ao mesmo tempo personagem, “autor” de Desabrigo e provável alter ego de Antônio Fraga. Evêmero irá funcionar, no jogo narrativo, como uma interface entre o leitor e a marginália. A máscara do autor, incorporada ao texto como personagem, provoca um sentido de ambigüidade; ao mesmo tempo em que confere legitimidade ao relato, coloca em questionamento as instâncias autorais e a “veracidade” do discurso.
Os malandros criados por Fraga, ao mesmo tempo que refletem o Mangue físico, funcionam como uma intervenção ficcional e ideológica nos planos histórico e imaginário da cidade. As definições propostas por Fraga para os tipos que povoam a cidade devem, portanto, ser analisadas tendo como perspectiva o contexto histórico daquele período.
- Sou poeta por ser vagabundo ou vagabundo por ser poeta? A resposta depende de quem faz a pergunta Do ponto de vista ético todo poeta é vagabundo e do ponto de vista estético todo vagabundo é poeta (...) Ora se entre poetas e vagabundos a diferença é milimínima não acontece o mesmo entre vagabundos e malandros O primeiro é sempre um idealista e é portanto individualista enquanto que o segundo é pragmatista e é povo Há entre os dois a diferença quilométrica que há entre uma balada de françois villon e um samba de noel rosa...(FRAGA: 1995,48)
Os conceitos de poeta e vagabundo são aqui ressemantizados tendo em vista o confronto entre o espírito capitalista e a herança dos poetas boêmios do século passado. Em contrapartida, nota-se a preocupação de evêmero em afastar o malandro do estigma de vagabundo. O personagem coloca os dois signos praticamente em oposição, na tentativa de construir uma nova imagem para a malandragem vinculada à cultura popular e ao “povo”. Trata-se, novamente, de quem faz a pergunta. Se nos sambas malandros, o sujeito aparece, na maioria das vezes, agindo em causa própria, em Fraga os termos “pragmatismo” e “povo” remetem mais ao conceito de coletivo do que ao plano individual.
É assim que se comportam os malandros de Fraga. Cobrinha, mesmo passando fome, não “autopsia” (furtar) evêmero, a pedido do malandro miquimba. Desabrigo, mesmo tendo sido navalhado por cobrinha, passa um conto do, e no, vigário para ajudar o desafeto, motivo pelo qual acaba indo parar na prisão. Portadores de um comportamento singular são capazes até mesmo de se sacrificarem por um companheiro. A voz do intelectual maldito colabora para tornar o malandro representante dos marginalizados. A ótica adotada pelo narrador desmistifica o caráter exótico do malandro e cria um cotidiano em que a luta pela sobrevivência se torna a principal meta.
Malandro e narrativa espelham um ao outro. Em ambos, o projeto estético não separa-se da ética. O corpo do malandro funciona como um texto em que os elementos estéticos – a aparência, a ginga, a fala mansa – conduzem ao sucesso dos golpes. Ao contrário do simples criminoso, para o malandro, tão importante quanto ganhar dinheiro, são os meios pelos quais ele o obtém. De maneira semelhante, a composição da novela e as intervenções formais condizem com o objetivo ético/estético do escritor.
Fraga corrompe a literatura em busca de uma estética própria que inclua a voz dos excluídos, da mesma forma que o corpo do malandro privilegia o estilo em busca de um construção do sujeito. Contraditoriamente à tradição romântica constitutiva do “eu”, o sujeito malandro se estabelece na superfície do corpo. Ao focalizar os anos 40, Desabrigo tematiza, no corpo/texto do malandro, o embate entre o novo sentido ético do trabalho e do capital, implantado no país, e uma estética da malandragem, que se deseja criadora e transformadora do sujeito. O corpo do sujeito malandro desintegra-se porque torna-se cada vez mais difícil unificar o sentido estético à particular moral da malandragem, vinculada ao ócio e à aparência.
Corpo navalhado não apenas pelo parceiro da malandragem, corpo navalhado pelos novos ditames econômicos e sociais, corpo navalhado pela própria escritura fraguiana. O corpo do malandro vivencia, dolorosamente, o que Fraga irá experimentar como criação literária: o corte, a modificação profunda e inevitável dos cânone literários e lingüísticos pela escrita. A cobrinha, em especial, caberá experimentar a imposição do limite do tempo histórico. Faminto, sem conseguir dinheiro para comer, cobrinha não é logo reconhecido pelo malandro miquimba.
- Ué!...é mesmo gente! Mas tu não eras maneta
- Ah isso é uma história da fome! Tem um porrão de tempo que não pego gordura
e cobrinha pegou a dizer que um dia começou a pensar que a mão dele bem que podia ser um mamão e pegou a mastigar em seco pra tapiar o estômago. Em seco? Viu que tinha engulido mesmo uma coisa e vai ver tinha sido o dedo Agora tava só com o cotoco do braço (FRAGA: op.cit., 56)
Cobrinha vive uma contradição explicitada pelo personagem verbo: ““tava se devorando pra se conservar”. O uso do cacófato – uma mão = um mamão – permite a cobrinha alimentar-se de si mesmo. Sem saber, ao devorar-se dá início a seu próprio fim. O corpo mutilado de cobrinha metaforiza o avanço do tempo histórico e evolutivo sobre o Mangue – compreendido enquanto espaço físico e mítico – e sua posterior destruição.
No entanto, o tempo histórico é apenas uma das instâncias pelas quais transita a narrativa de Desabrigo. A “avenida” (corte provocado por arma branca) que se abre na carne de desabrigo e o corpo mutilado de cobrinha metaforizam a integridade da norma culta violada pela escrita fraguiana. Tal procedimento faz parte do jogo entre vida e literatura estabelecido por Fraga.
Por isso, é preciso abolir o fim do enredo para instaurar um contínuo narrativo que se estabelece para além da História. Da História monumental, que consagrou um modo de ver linear e evolutivo. O caminho escolhido por Fraga remete a uma concepção desestabilizante da história, privilegiando o instantâneo, o momento.
Ao lançá-los da História para a ficção, Fraga/evêmero pereniza a marginália em movimento, em um sistema de vozes polifônico. Daí, a clara admiração de Fraga/evêmero por Nietzsche. O olhar nietzschiano do autor sobre a criação literária liberta Desabrigo dos pontos finais e da narrativa tradicionalmente concebida em função de um desenlace. A construção narrativa circular tensiona a concepção linear de História.
São essas duas forças – uma linear e histórica e outra, circular e literária – que arrastam os personagens e as múltiplas instâncias autorais para o confronto final encenado no último/primeiro capítulo da novela, intitulado “O eterno retorno”. Em um primeiro instante parece que a História temporal irá vencer. “Evêmero andando pelas ruas do mangue (agora o mangue acabou) andando pelos escuros da lapa (a lapa acabou) passando pela praça onze (praça onze acabou) procurando os irmãos dele” (FRAGA: op. cit., 67)
Reprimido, durante os anos 40, pela política de moralidade de Vargas, o Mangue não serve mais de abrigo aos malandros e prostitutas. Sozinho na rua, evêmero vê passar, vitoriosos, anatole, o padre e o delegado, representantes supremos das instituições literárias, religiosas e legais. Desabrigo, o malandro, está preso; “vai ficar toda vida no xadrez” – diz a evêmero “uma voz que vinha passando e se chamava verbo”. (FRAGA:op.cit,68).
Instigado pelo verbo, “Evêmero então foi indo pra casa e foi pensando “É preciso fazer qualquer coisa - um esbregue danado de medonho ou uma revolução” (FRAGA:op.cit, 68) Não uma revolução pelas armas, como aquela que acontecia naquele ano de 42[1], na Europa. Essas deixam mortos e apenas reafirmam o lugar dos poderosos. É preciso uma revolução que afirme o lugar dos vivos. Uma revolução pela palavra. “É preciso fazer alguma coisa – agir agjr agir ...” .” (FRAGA: op.cit, 68-9)
Desabrigo, a novela, faz ecoar as palavras de Ariel Dorfman, para quem a destruição dos esquemas tradicionais de tempo, espaço e linguagem e a experimentação de novos modos narrativos remetem a um protesto “contra un mundo que trata de negar esa violencia, esperando tal vez que en bombardeo de bofetadas lingüísticas, alguien se despertará para hacerse preguntas fundamentales, para cuestionar la realidad misma y convetirse en un ser humano cabal.” (DORFMAN:1970,37)
O verbo torna-se matéria plástica nas mãos do escritor. As metralhadoras giratórias remetem, pelo olhar suplementar do leitor, a uma nova construção narrativa em que o infinitivo “agir agir agir” se transforma em “girar girar girar”. Resolve-se parcialmente o enigma: perpetua-se, pela escrita e pela leitura, o movimento.
A construção ficcional ensaia escapar à história. Se o Rio de Janeiro, compreendido enquanto espaço físico dos boêmios anos 30, não mais existe, resta a possibilidade de “agir-girar” e construir uma nova relação com a cidade a partir da literatura. É o próprio ato de escrever que é tomado como resposta ao avanço do tempo histórico. “Despiu o paletó (metralhadoras metrabalhadoras metralhadoras) arregaçou as mangas da camisa (metralhadoras metrabalhadoras metralhadoras) e metralhou na reminton” (FRAGUA: op.cit, 65)
Ao final da narrativa, repetem-se os parágrafos iniciais do primeiro capítulo. A violência de um suposto progresso é apropriada por evêmero e ressemantizada. As metralhadoras tornam-se metrabalhadoras. Escrever torna-se metralhar ou, quem sabe, metrabalhar. A violência opressiva transforma-se assim em violência criativa.
Fraga/evêmero escapa à armadilha de reagir fisicamente à opressão social. Sua revolução se dá no momento em que metrabalha a reminton. Como o malandro, que necessita conhecer intimamente o outro para garantir o sucesso do golpe, evêmero utiliza-se das “armas” do outro – as normas literárias e lingüísticas – para poder libertar os personagens do Mangue de sua exclusiva dimensão histórica e inseri-los na eternidade do narrar. O malandro, que seria eliminado pela perseguição de Vargas e pelo avanço capitalista, vence assim a morte física.
A narrativa circular, entretanto, pode significar tanto libertação como condenação, cabe ao leitor estabelecer suas exclusivas significações. Neste plano realiza-se o desejo fraguiano de borrar as fronteiras entre morte e vida. E entre o ato de escrever e o de viver/morrer. Assinar a obra de arte – ou de vida – revela-se semelhante à tarefa de assinar/assassinar o outro. Opera-se uma troca quiasmática.
Da mesma forma que a máquina de escrever torna-se arma de uma revolução, o “ferro” (arma branca) e o “fogo” (arma de fogo) tornam-se meios pelos quais o malandro assina sua obra. Só que no lugar do papel, o malandro escreve seu texto no corpo do outro. Como na navalhada que desabrigo leva de cobrinha. Ou ainda no impressionante relato de um malandro dos anos 20, registrado em crônica por Orestes Barbosa.
Ouvi certa vez do Patola, que está condenado, a descrição do assassinato de um espanhol, na Ponta do Caju:
- Dei-lhe o primeiro tiro, ele desceu. Aí baixei fogo nele, a para-bellum parecia uma máquina de escrever. Despejei-lhe os 24 na cabeça.
Vinte e quatro tiros. Ele falava com volúpia do valor da arma.
Em volta do Patola estavam outros criminosos – todos de olhos cobiçosos, sonhando com a máquina de escrever (BARBOSA:1993, 100-1 - grifos do autor)
Patola, malandro das ruas, garante sua independência através da escrita de sua pistola. Desabrigo e cobrinha, malandros do Mangue ficcionalizado, asseguram sua continuidade pela violência da escrita de Antônio Fraga. O malandro, escrevendo com o próprio corpo, e Fraga, escrevendo com a metrabalhadora, são intervenções do sujeito que terminam por implodir com a idéia de “povo”, compreendida enquanto essência simbólica da nação. À sociedade despedaçada, Fraga oferece o ancestral ato de escrever/narrar em atrito constante com a temporalidade histórica.
Referências Bibliográficas:
BARBOSA, Orestes. Bambambã!. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, 1993.
DORFMAN, Ariel. “La violencia en la novela hispanoamericana actual”. In. Imaginación y violencia en America. Santiago do Chile: Editorial Univesitario, 1970.
FRAGA, Antônio. Desabrigo. Rio de Janeiro: Sec. Municipal de Cultura, 1995.
SILVA, Maria Célia Reis Barbosa. “Antônio Fragua: Personagem de si mesmo”. Tese de doutoramento – PUC-Rio, 1998.